segunda-feira, 19 de julho de 2010

A CAIXA DE PANDORA



É sempre o mesmo ritual, au, au! 

Chegam os amiguinhos dos donos meninos e eu começo a latir bem forte.


Au, au!


Aí dono menino Ulisses ou dona menina Lili(depende de quem é o dono do amigo) me botam a coleira e nos levam - o amigo e eu - pra passear na praça. Au, au! 

Pronto, já vou logo ficando amiga e todo mundo brinca comigo! Au, au!


Mas acontece que a coisa não é sempre assim. Au, au!


Quando chega o pai dos donos meninos, já vou logo latindo, mesmo antes de ele entrar. Au, au, au! 

E corro encolhida pra perto de quem estiver no sofá. Ele tem cara de japonês bravo e voz forte, e vai logo entrando e dizendo:


- Desce do sofá, Pandora!


- Pára, pai, ela tem trauma de violência!, diz a dona menina Lili;


- Pára de perseguir a coitada; retruca a dona Babá;


- Vem no colo, vem, Pan!; me chama o dono menino Ulisses.


Mesmo com tanta defesa eu desço encolhida, morrendo de medo, fico esperando ele se ir.


Au, au!


Da última vez ele veio com a história de que deviam se livrar de mim, que na mitologia grega Pandora tinha uma caixa de coisa ruim, que podia trazer mau agouro.Os donos meninos arregalaram os olhos e eu levantei minhas orelhas. Dona Adulta, com calma e sem dar atenção, foi passando pela sala e respondendo:


- Pandora trouxe esperança às pessoas, a chance de evoluir.


Ficou todo mundo mais calmo: baixei minhas orelhas, os donos meninos baixaram os olhos e o pai dos donos meninos voltou a brincar com a dona menina Juju, que só ria, ria, achando graça da gente.


Talvez se ele me levasse à praça, as coisas melhorassem entre a gente.


Au! Au! Au!

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