segunda-feira, 26 de julho de 2010
A INTRUSA
Estava quieta no quintal, tomando um solzinho quentinho da manhã e vendo os pardais fazendo bagunça aos pés da nossa amoreira. Às vezes eles iam roubar um pouco da minha ração, e saíam voando quando alguém se aproximava.
Au!
Tava aquela paradeira quando vi um bichinho bem pequeno, de casco preto e pontinhos vermelhos andando bem apressadinho. Au!
Levantei as orelhas e fui me aproximando devagar. Au!
Ela nem ligou, continuou andando seu passinho apressadinho.
Comecei a latir pra ela, au, au, bem forte, mas ela nem ligou.
Lati mais forte ainda e fui arranhando a minha patinha um pouco mais à frente do caminho dela. Au, au!
Ela continuava a sua marchinha eu ia de novo arrastar as patas mais à frente, e latir mais forte e nada. AU, AU!
Quando ela alcançou a parede, desistiu da marcha, fez a meia volta e - surpresa! - veio em minha direção!
Au, au!
Saí correndo! Que joaninha danada!
Au, au!
ODEIO FÉRIAS!
Odeio férias! Au!
Todos os dias era aquela coisa de acordar cedo, brincar ou ficar no colo, e esperar a hora do banho, do almoço, e eu os via do portão partindo pra escola, sabendo que só voltariam de noite. Au!
Quando eu sentia que era hora de voltar, eu ia pro portão esperar. Via o carro se aproximando, e pronto, aquela festa, desciam correndo pra mim! Au, au!
Eu pulava, abanava o rabo, corria e voltava, era tão alegre! Depois do jantar, ficava sentada quietinha ajudando na lição. Aí chegava o sábado. Au!
O sábado era o meu dia predileto, porque era o dia todo só pra mim! Au!
Domingo também era bom, mas tinha a hora que eles saíam e aí só voltavam de noitinha, mas mesmo assim era bom.
Aí era assim: passava a semana corrida e chegava o sábado, e chegava a alegria inteira! Au, au!
Foi aí que ouvi uma conversa de férias, de não ter aula nem lição por trinta dias! Au, au, au!
Contei com eles o dia das férias chegarem, ia ser sábado todo dia!
Elas chegaram. Au!
As férias! Au!
E eles se foram! Au!
Isso ninguém me contou. Au!
Agora conto os dias das aulas voltarem. Au! Au!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
A CHAVE DO TAMANHO
Tem uma história, de um tal Monteiro Lobato, em que uma boneca chamada Emília descobre a chave do tamanho pra deixar todo mundo pequenininho e acabar com as guerras.
Au, au, au!
Eu nem preciso de chave! Tem uma fresta no portão que ninguém tinha percebido e me cabe direitinho, quer dizer, meio apertadinha porque eu estou crescendo, e aí, sem ninguém saber, eu fujo pra praça. Au!
Lá eu brinco sozinha, andando pelos matinhos ou entre as florzinhas, e às vezes vem a cadelinha do dono da lojinha e a gente fica conversando coisa de cachorro.
Au, au, au!
Outro dia, quase morri de susto:
- Pandora!!!
Dona Adulta me chamou bem brava e me deu um pito daqueles! Pior é que, ainda por cima, eu voltei cheia de carrapicho!
Au, au, au!
Deu o que fazer pra tirar os carrapichos que grudaram no meu pelo, pelo corpo, pela cauda, nas orelhas!
Ela ainda não fechou a minha porta do tamanho, e às vezes eu ainda escapo, mas com mais cuidado.
Não sei se a travessura é minha ou dela!
Au, au, au!!!
A CAIXA DE PANDORA
É sempre o mesmo ritual, au, au!
Chegam os amiguinhos dos donos meninos e eu começo a latir bem forte.
Au, au!
Aí dono menino Ulisses ou dona menina Lili(depende de quem é o dono do amigo) me botam a coleira e nos levam - o amigo e eu - pra passear na praça. Au, au!
Pronto, já vou logo ficando amiga e todo mundo brinca comigo! Au, au!
Mas acontece que a coisa não é sempre assim. Au, au!
Quando chega o pai dos donos meninos, já vou logo latindo, mesmo antes de ele entrar. Au, au, au!
E corro encolhida pra perto de quem estiver no sofá. Ele tem cara de japonês bravo e voz forte, e vai logo entrando e dizendo:
- Desce do sofá, Pandora!
- Pára, pai, ela tem trauma de violência!, diz a dona menina Lili;
- Pára de perseguir a coitada; retruca a dona Babá;
- Vem no colo, vem, Pan!; me chama o dono menino Ulisses.
Mesmo com tanta defesa eu desço encolhida, morrendo de medo, fico esperando ele se ir.
Au, au!
Da última vez ele veio com a história de que deviam se livrar de mim, que na mitologia grega Pandora tinha uma caixa de coisa ruim, que podia trazer mau agouro.Os donos meninos arregalaram os olhos e eu levantei minhas orelhas. Dona Adulta, com calma e sem dar atenção, foi passando pela sala e respondendo:
- Pandora trouxe esperança às pessoas, a chance de evoluir.
Ficou todo mundo mais calmo: baixei minhas orelhas, os donos meninos baixaram os olhos e o pai dos donos meninos voltou a brincar com a dona menina Juju, que só ria, ria, achando graça da gente.
Talvez se ele me levasse à praça, as coisas melhorassem entre a gente.
Au! Au! Au!
sexta-feira, 16 de julho de 2010
UMA CADELA QUE VEIO DO CÉU
Au!
Gosto quando dona Adulta conta para as amigas dela a minha história, que não é minha, é dela. Acho bonita. Au!
Ela disse que tinha rezado de noite pedindo um cachorro ideal, que fosse alegre, mas não latisse toda hora, que fosse valente, mas que fosse mansinho. É porque dona menina Juju é especial, sabe, tem necessidades especiais e se assusta fácil com barulho. Ela disse que rezou e, au!, no dia seguinte, au!tinha um canhorrinho na garagem.
Aí todo mundo me olha como se eu fosse encantada, achando que, au!, sou mágica.
Acho essa história tão bonita!
Au! Au! Au!
AMO MUITO TUDO ISSO!
Au!
Adoro comer meias, chinelos, sandálias. Quando está com aquele chulezinho, que delícia, au!, faço uma farra!
Corre todo mundo atrás de mim pra pegar meia, pegar chinelo, pegar sandália. Au!
Já comi uma porção!
Fico quieta, de olho, esperando, esperando, e quando eles distraem, au!, pego depressa e saio correndo! Au!
Au, au, au!
SER OU NÃO SER
Dona Adulta vive dizendo:
"- Pan, não seja tão vira lata!", só porque às vezes ela me pega mexendo no lixo da cozinha.
Dono menino Ulisses e dona menina Lili vão logo dizendo:
"- É, Pan, seja um labrador!" E dão boas risadas. Au! Au! Au!
Antes comia comida; agora, au!, como ração.
Às vezes dá saudade do gosto de comida, e a comida da dona Babá sai tão cheirosa pela fumaça das panelas! Au! Au! Au!
Bem verdade que cresci, o pelo brilha, meu corpo é mais forte e o cocô é sequinho. Au!
E eles me pegam no colo e me enchem de carinho. Au! Au!Au!
O QUE PASSOU, PASSOU!
Agora au! Tenho cinco donos: dona Adulta, dona Babá, dona menina Lili, dona menina Juju e o dono menino Ulisses.
Agora, au!, tenho uma casa.
Quando cheguei aqui era bem pequena. De onde eu vim, au!, apanhava muito, mesmo sendo bebê.
Apanhava de pontapés, de vassoura, de tapas! Au!
Apanhei muito, até que uma noite me largaram numa praça escura. Au!
Fazia muito frio, andei sozinha sem saber aonde ir. Au!
Entrei na primeira casa que vi. Au!
Fiquei bem encolhidinha no cantinho da garagem sem saber o que fazer.
De manhãzinha apareceu a dona Adulta. Ela olhou com medo pra mim, eu olhei com medo pra ela.
Foi uma confusão. Fica comigo, não fica, au, dona Adulta vendo se tinha dono, au! Não tinha.
Donos meninos foram logo ficando comigo e aí ela também ficou. Au!
Passei de colo em colo, de carinho em carinho, até que , tudo resolvido, me levaram para aquele lugar esquisito: au!
Tomei banho quentinho, secador, tomei vacina, tomei remédio pra verme, au!
E ganhei uma carteira de vacinação.
Voltei cheia de lacinho, toda bonitinha, mas eu ainda tremia, ainda tinha muito, muito, mas muito medo mesmo! Au!
Dona Adulta virava e mexia olhava-me incomodada:
"- Ela não late!"
Verdade, au!, eu não latia.
Três dias sem latir, sem soltar nem um pio. Até que um dia eu vi na rua a dona malvada.
Aí, au!, lati! Meus donos começaram a bater palmas e a sorrir!
Agora, au!, tenho uma casa!
Agora, au!, estou feliz!
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